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segunda-feira, 23 de março de 2009

Os Nove Soldados


"O Sonho do Soldado", Sokurov











Do livro (inédito) "A MELANCIA - Filmes Eróticos e algumas Epifanias"

Há mais de uma semana caminhando pelos bosques e desertos gelados do Norte, a pão e água, nove soldados armênios voltavam da guerra. Vi-os àquela manhã, co’as calças molhadas, prostrarem-se de joelhos sobre a neve que derretia aos primeiros raios de sol, livres do agouro de uma noite fria e inédita. "Obrigado, Senhor", rezou o jovem tenente que quase morrera na véspera glacial. Brancos, gelados, agradeciam aos céus. Como eram belos à alvorada, entre as montanhas, recuperando a vitalidade comum! O sol vibrava em seus rostos, nove soldados se abraçando, sorrindo: ninguém me notara, um deles até chorava: “A Armênia venceu a guerra!” Mas essa noite anormal refrigéria havia-os marcado indelével. No calor de seus corpos, salvaram-se e acordaram, como direi, felizes, e quanto mais se aqueciam mais jovens se pareciam. Oxalá salve os meus homens da guerra e toda vez que houver uma noite assim, terrível e sombria.

Surpresas do Casamento


Com Luiza e Agata, foto de Cláudio Pedroso










Tudo bem, já passei por isso antes, não faz mal, a vida continua: eu não estou bem, amanhã vou estar melhor. Acordo cedo, o sol meio frio lá pelas seis: levo um papo com ele, com o sol, uma amolação, imolação ao deus.

– Amon-Rá, estou mais vivo do que jamais estive, e não estou nem aí pra morte, foi uma loucura – adoro-o, de joelhos.

– O que deu em você, meu doce amigo? – perguntar-me-á belo, gélido, um sol da hora bem intrigado.

– Sei lá, não sei, o que me deu? Dizes tu.

Esqueci que devias estar aqui quando eu acordasse, assim como ontem, como sempre. Tentei lembrar a letra daquela canção, “sei lá não sei, sei lá não sei não”.

– Ó envolvente e úmido sol matinal, por favor, me dizes, o que me deu?

– Não sei, sei lá, o que havia de dar errado, meu anjo? – insistirá meu amado deus brilhante e ardente... Lembrei do meu amor esquecido, ele havia sumido, mas afinal, era você um amor?

– Ai, quantas perguntas, elas não cabem a mim? Não sou eu o consulente? Estou cansado e revoltado: é por tua causa!

Eu me consumia, arrebatado pela magnífica maravilhosa estrela solar, também eu me sentindo maravilhoso, jesus, uma doce lembrança do futuro. A campainha tocou, era você na porta.

– Querido, vim-lhe ver, estava morrendo de saudade.

Deus, o que há de errado comigo?

domingo, 22 de março de 2009

A Morte Prematura


"O Sètimo Selo", Bergman











Caminhando astuta sobre túmulos vazios
Lá vinha a morte prematura em golpes de misericórdia
Os cordiais espíritos vagando às trevas de ar impuro e terreno
Consolavam-se às escrituras lapidais:
Aqui jaz aquele homem
Adiante jaz uma mulher
O anjinho recém-nascido...

– Nossa, quanta gente morta!

Vestida de preto, com seu lendário machado
A criatura ancestral rondava impávida, ansiosa por novas vítimas
“Que solidão morrer nessa hora...”
Os espíritos se divertiam sobrevoando coroas de flores
(Algumas ainda bem fresquinhas) O sol se punha, e então
Sentimentais que eram (“Ai, que saudade do meu benzinho”)
Punham-se a chorar, os espíritos
“Ó, quão surpreendente é a morte
E sobrenatural”
Ela, a morte, nem aí: só deu tempo de o padre benzer o infeliz
Que expirou feito vaca com a lâmina no peito!

Jardim dos Suspiros


“Artrópode necrófago”, parecia ouvir do próprio sinuoso escorpião, ali, mexendo com a calda. Revelando sua natureza sobre a lápide empoeirada.

A lua monge longe lançava grossos e densos raios prateados sobre o meu peito arfado, minha tez gelada. Meu obscuro escorpionídeo, ó, estamos somente nós dois nesta necrópole desértica, e eu amo você, meu bichinho, eu sou você! “Ah, é?”

Segui-o, o olhar esbugalhado, apreensivo: o inseto lacrau fugindo por entre as fendas do túmulo, os feixes de luz, a lua com sua luz fria e cinêmica, os fantasmas de anjos, jesus, meu peito batendo rápido e o meu queixo, meus dentes rangiam. Meu coração carregava as mágoas do sexo.

“Demônio antropófago!” Mas quem disse isso? Meu deus, foi você, estranho aracnídeo!

A Epopéia dos Ratos


A banda Sangue de Cristo, Augusto, Sebage, Jatiúca e Muniz, Maceió, 1986, foto de Vinicius Lopes


Do livro "A MELANCIA - Filmes Eróticos e algumas Epifanias"

Introdução (Síntese)

Rat and the cat – who’s the cat, me? Gato, mouse, you mouse! “Sinto falta do quê, de você, sinto sua falta? (...) Ah, sinto tanta falta de você, de você, de você!” (Revólver) (Antiquados) (Hum) “Bem-aventurada esperança, por favor, não me deixe ao largo, mouse, querido, chega de maus-tratos.” Me sinto tão fraco: estes finos fios invisíveis e cortantes me sangrando, tão apertados em volta do meu corpo, é a minha prisão, será? Não ando armado (Revolver, Beatles, Walter Franco), você e eu a toda velocidade, crescendo, não estou certo, deitar-nos-emos nus de lado? Comum esquadro, mal-formado, deformado, você, também: desinformados. “Me deixa, olha, tô arretado, tem jeito?” Otário (!), quem, eu? (Quem?) Eu?

A Fábula da Pequena Pena

Cena 1


Uma pequenina pluma negra caiu no parapeito da janela
Do meu quarto, agora, ou melhor, que horas, “eu ouço tiros todas as noites” Eu ouço o velho dizer num filme na TV, “eu já vi gente morta”, ele disse
O pequeno, que horas? “Pouco mais de dez, eu acho”
Acho que desfalecerei, vou morrer, mas não agora, eu disse
Que não gostava de campari, campari, vermute, meu deus, eu lembro
Dos cristais: Clarice L. com um pedacinho do livro refletindo
Um mistério: observando aguda a câmera fotográfica pelos reflexos
Do prisma (Pink Floyd): “Ai, ai, ai, como eu gosto disso”
Mas não desse cheiro à janela, mas o que vem a ser isso?

INTERVALO
(pesquisa de registros)

O DRAMA EM SI
(no bom sentido: tecno e romântico)

Cena 2 (Epílogo)

A pena, pluma negra (estragadinha) tem
Um significado, não tem nada a ver com esse aroma enjoado
Das cozinheiras à janela, mas já passou. “Ah, mas aonde há poesia aqui?”
E onde estava o meu gin na outra noite, ham, um dry martini
Sem gelo, é claro, por favor, outro bem fraquinho pro meu amigo fresquinho
“Hey, Joni, don’t want a little more?” My mouse, yeah, yeah, Mickey Mouse
“Esse é o especial que vai ao ar no Natal”, Marisa explicava a Cris
Na MTV, te vejo no Reveillon, eu vou pro Rio (a lenda do Rio)

Sobre Questiúnculas, mas já sem mais Nada pra dizer


Maceió, 2008, foto do celular de Vinícius Lopes










Esquálido seu brilho magnético no olhar – “brilho magnético, James Bond! Miúcha!” Eu olhava e nada de me corresponder, estranho olhar esse no ar – algo comedido, aliás, era-o todo de uma palidez, e o luar. “Venus de Millus, as pupilas do bom pastor, a cabra cega insana de horror” (amargura, viadagem, imorais). Mas havia lágrimas, observei outra vez aqueles olhos – neutros, completamente. Diabólico, overdose e totalmente natural, improvisei umas palavras (vazias) e seus olhos disseram (eles falavam), “valei-me, Nosso Senhor”. Tive um medo. E os olhos repetiam, “valei-me Nosso Senhor”. Acordei, num suspiro.

Eu e o Ellyo Rios, Teatro do Sesi, 2007, foto do Rômulo

















Apontei-lhe o dedo em riste
Não percebeste, mas isso queria dizer
“É a tua vez”, entende?