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terça-feira, 6 de julho de 2010

Depois da Cheia


Piscina, foto by Gal Monteiro, 1981










Depois de ter passado por tanta coisa ruim, tanto desassossego e o medo de crescer, de fazer algo realmente bom e esplêndido, algo duradouro, depois de ter errado e errado e comido o pão que o diabo amassou, de ter usado todas as drogas – todas não, as mais baratas –, depois de ter caído no abismo e armado um escândalo, depois de ter amado uma, duas, três vezes e o tempo foi passando, depois que ficou só e velho e depois de ter sido abandonado pelo pai e pelos irmãos – claro, não foi abandonado pela mãe –, depois que finalmente cresceu e olhou no espelho e se lembrou de seu pai lhe cobrando, “e o que foi que você fez?”, depois que perguntou a si mesmo, “cadê o dinheiro?”, depois que ligou pro seu amigo e ele respondeu tão frio, “estou em casa vendo o jogo”, depois da cheia no Manguaba e ele nem podia sair de casa, pra balada, pro trabalho, pra viajar de volta a sua antiga casa, então ele caiu em si, “preciso parar”, “dar um tempo é preciso”, “preciso voltar a cantar minhas canções e lhe pedir perdão”, “preciso de um casaco de couro preto pra me sentir importante, pra me resguardar do Inverno”, “preciso acreditar nisso”, “preciso disso”, “preciso de um beijo seu, uma resposta carinhosa ao telefone e atenção, puxa, eu preciso de atenção”, “preciso voltar a compor, sentir o seu hálito no meu rosto de manhã cedinho” e depois o sexo, não é, é tão bom sexo de manhã e depois tomar um banho e um café com frutas e pão e ovos e olhar nos olhos da pessoa amada e sorrir até sentir o peito inchado de esperança.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Prisioneiro do Sexo

Com Mano, ex-Alma de Borracha












Prisioneiro. Metade homem, metade prisioneiro. “Mas de quê prisioneiro, meu” – meus amigos não acreditavam que fosse eu metade homem metade prisioneiro.

“Meu caro Sebage, não estais exagerando?” No, no estoy exagerando. Yo soy de facto (no de derecho, claro) un prisionero del engaño. Prisionero del sexo, entiendes? “No, no existe…” Ma come che no existe, come che me dice? “Isso é loucura.” (Estes são os meus amigos).

Oh, aquela balada cortando meu pulso, você ali do lado gemendo, depois a canção como uma cobra, sibilando. A maior pancadaria, está bem, pode vir agora. (Foi uma guerra, meus amigos pensam que tudo isso é, apenas, literatura).
– Ó idolatria, amore... Amore! Todo esse musgo, ervas daninhas, milhares de malvadinhas, ó, quantos golpes traiçoeiros!

“Credo, não estais mesmo a imaginar tais vis loucuras, caríssimo?” Duvideis de minha obsessão e enxergueis a paixão somente nos filmes de Visconti? “Pero, el mancebo eres tan distinto, no? Tan rico, tan gentil, e parece calmo, eres de tal manejo delicado, habla tanto de tanto amore per te, queridinho, que se pasa? Ele fala tão manso de ti.”

– Malogro, dissimulação, desfaçatez! O diabo tem uma vocação, vocês não sabem da missa um terço: Dionisos preso no inferno, não acreditam, não é? Mas eu o amo até hoje.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O Homem Perfeito


O ideal de um homem, ele bate nas minhas costas. “Não, eu não sou bom pra você.” Desdenhas, não acreditas. Consideremos a poesia e a álgebra, a aritmética das coisas todas, o destino dos heróis. “Eu sei, você não é perfeito. E eu não falei bom, falei ideal.” Compreendia a habilidade dramática do meu interlocutor, minha caça e minha fantasia, na defensiva a me torturar alegremente, e podia, claro, protestar suas desculpas. Limitei-me a sorrir: “Você tem razão”.

Era o começo e já o fim? Ou havíamos de ter esperança, ao menos para o homem perfeito? Ou não enxerguei nada quando pensei, “ele é perfeito”? Ah, perfeito pra quê num mundo imperfeito. Não escrevo o que se espera de mim, eu escrevo pelo desalinho, ao inverso: o que interessa é que, embora estranho, é ao mesmo tempo natural, tão natural que simplesmente escrevo, bem, eu tenho essa esperança porque esta noite, sim, eu sei, esta noite foi exatamente a primeira. E isso é tudo, mas quem disse que eu quero mais?

Dever do Soldado

O show 'jesuítas no Paraíso', foto do Vidal, tô parecendo um Coringa né







Artifícios celestes me lançam a ti, numa bandeja,
de mão beijada, mas eis o que farei: afasto-me!

Antes de me perder nos assombros de mim mesmo, envolvendo paixão. Não que eu seja mal, tu também não o és: vou-me embora, é meu dever de soldado.

E o que farás? Uma palavra não me enrola, o silêncio não me apavora, mas a tua ausência... Se te demoras, não vejo a hora, afinal, não voltarás?

Fico pensando, isso não é louco? Tanta saudade quando vais, mas pra onde?

O dever do soldado é amar seu conjugado, se estão juntos na guerra. Vá, quero que vá, eu vou ficar aqui: esperando.

Mulheres no Laço (no dia internacional da mulher)

Entrevistando o que se fez mulher: Roberta Close
















Mulheres falam muito e amam demais
Mulheres colhem frutos de seus ideais
São loucas, são fofas, atrevidas e tais
Aquela ali nunca se satisfaz...
Mulheres legais, banais e fatais
Agora elas estão aqui, todas juntas
Dá pra acreditar?

Paixão 1 Milhão


Amigas dançarinas Luíza e Ágata, do show 'jesuítas no Paraíso', São Paulo, 2001, foto by Pedroso



Eu queria ficar com ele, com a exatidão desse nada que já é o presente no futuro, nesse jeito dele sentar e conversar, tomando cerveja, comendo um arrumadinho. Enfim, falou: “Eu dou conselho a você, Sebage”. Mas eu não ouço né, continuo velejando, desmantelado e sem juízo, por mares nunca dantes navegados. Será? Bem, as coisas não andam muito normal, mas então, voltando aquele assunto, quando, quando vamos ficar juntos? Um dia, Sebage, quem sabe isso aqui não seja cozinha, preparo, escola, ordálio, a maneira mesmo como se dão as coisas. Eu fico olhando pra ele: eu o quero, preciso fazer sacrifícios, jogar a rede, jogar peixe podre no mar. Depois voltar ao começo e abrir meu coração. Pra ele. Pra ele ver que é de verdade e que eu não estou de brincadeira, que eu quero ficar com ele. Até que ele arrume outra e se case e fique velho e eu, morra.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Que Coisa


Antes que se pague a promessa, estarei curado e salvo e estarei: apto. Renascerei.
– Renasci em você, no seu desejo. (Tá explicado? Não, né, tudo bem, não faz diferença).