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quinta-feira, 19 de março de 2009

Na Hora Certa


Então esperei mais três noites
Da próxima vez, chegávamos ao fato consumado
Eu darei o sinal: “É hoje”
Sim, beijinhos tudo, carícias
E declarações atropeladas
Ah, finalmente a pessoa amada
Então, é hoje, pega a camisinha?

Pior do que Los Angeles


O terrorista Willians Valente, quer dizer, o fotógrafo...











É tarde pra pensar nisso, quer dizer, não muito, afinal, você não está morto. Só está absorto com a violência de como as coisas acontecem. Cada dia mais covarde, mais traiçoeiro: as pessoas estão assim, estúpidas, criminosas. A gente ria de tudo isso, mas o meu velho pai já não está entre nós, o mundo virou um caos, nossos filhos, querendo aprender mais, ganhar o mundo, e você chocado e arrasado: essa corrente de brutalidade, Alagoas, oásis do crime: Perfeito, por todos os lados, um canalha pra lhe acuar: Miseráveis, é muito pior do que em Los Angeles.

quarta-feira, 18 de março de 2009

A Via Crucis


Duas cartas do Tarô. O Enforcado, a via crucis, virando-se de ponta-cabeça, posicionado a um outro ângulo – diverso e oposto –, redirecionando a visão habitual, bitolada e acomodada ao velho desgastado e arcaico modus vivendus, necessitado de mudanças, prestes a renovar-se: o sacrifício voluntário do sofrimento de estar pendurado pelos pés, mas, ao mesmo tempo (vire a carta), feliz, como um bailarino de pernas cruzadas fazendo o 4. Da lei ninguém escapa, cresça, a inversão do ponto de vista traz conhecimento: o atrito da pedra ralando a pedra que bota fogo, o homem que faz nascer o fogo. A outra carta. Rei de Paus, perfeição de espírito em movimento, paus dos paus, o rei, o homem, o ser humano criativo, a persona viril e a Natureza: a força e plenitude do trabalho mais do que abençoado, e a magnitude da criação: o empreendimento (majestosamente) honrosamente realizado, o homem condecorado e tornado mestre, um jovem rico e sábio, e humilde, posto que seja livre e nobre e galante e conquistador: uma espiritualidade capaz de realizar todas as coisas, incluindo a representação exemplar da via crucis.

terça-feira, 17 de março de 2009

Passagem


Foto de Willians Valente


















Olho prum lado, olho pro outro e encaro você, pode contar dois dias ou cinco mil anos. Essa corrente presa aos pés com que me arrasto vagando pelos trilhos do metrô, a mercê do vento que sopra do túnel e enche os meus pulmões.

Guardas, guardas. Um anel ficou na Lusitânia, quer dizer, passas e figos abocanhados às pressas no canal de la mancha de sangre, o estômago vazio preenchido assim, meu jardim tropical demarcado, a história adelante, cara, eu fiquei só.

Dias de Glória


Foto: Sebage












Os dias dramáticos da luta pela liberdade na terra, na água e no ar, na mente, no sangue dos ancestrais: Calabar, o deus morto, o herói a ferro e fogo lá atrás. Dias mágicos, dias práticos, grandes fantásticos dias de guerra atingindo a carne: o fio da navalha, a correnteza, ó Manguaba, ondas vão e vêm sob os motores, os braços dos meus amores, meu rio, meus super-heróis.

O barco atrás afundando em chamas, a vida clama incerta, um canto fúnebre no alto da colina, o grito de guerra cá embaixo, meu próprio coração um tambor: esqueço o tempo, o espaço onde estou, a vida tem sabor de cerveja, e a recompensa do banho livre, no fim da estrada, a estrada do rei, meu rei, sabe o quê mais, esses dias são gloriosos!

Amon-Rá queimou meus Cabelos


No estúdio do Jorge, Pinheiros, São Paulo, foto de Willians Valente
















Amon-Rá que arrasou meu castelo infantil
Elevando a temperatura à passagem do diabo
Queimando minhas calças, oh, yeah
Cercando minha vergonha num ardil
E o pudor e a minha alma

Fui agitar-vos àquela noite (Shake it! Shake him!)
E o sol que me ressecava os cabelos
Não impedi, oh, darling, que partísseis
– Pardon, mon soleil!
À tarde, que havíeis dormido, ao acordares implorei
Não infligi célere pena a vossa memória
Pois foram desvelos somente
Ritual premente de noite transitória
– Segundo tempo, intervalo: comece tudo de novo
(Eu sei que estou ferrado, ma, dio, come ti amo!)
Okay, ninguém morreu...

“Sebage, meu amigo”
“À noite, não faça mais isso comigo”
Então de dia, curumim, podia?
Também não devia
Tá bom, tudo bem
“Eu te amo, neném”

quarta-feira, 4 de março de 2009

Latrinos


Eu e Rômulo, Maceió, 2006, a foto é do Éllyo Rios


Não enfrentou os cães, os gatos e os passos de Arquimedes percorrendo a Via Láctea. Esses monstrinhos todos envoltos em lonas cinzas, lonas rubras, melancólicas, cheias de falso arrependimento. “Nasci do Verde, minha amiga, na fé e no excremento. Mas quanta sutileza no ar, heim?” Não é, compadre? Pústulas fedorentas, nordestinas, não são mais baianas porque não podem: Paraibanas! E não enfrentou os lagartos do mato, avis rara, avis cara, carcará, asa branca, cruz credo!