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segunda-feira, 29 de junho de 2009

Simpatia pelo Demônio


Há de ter uma força danada pra superar os demônios do dia-a-dia, especialmente o cão medonho da luxúria, que vem desse prazer da lua e a noite: imensidão do abismo, tontura de cair, escorregar e sonhar: fazer arte e esquecer, ficar aqui pra sempre.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Corpus Christi


Inexatamente: a cada passo que dou, mas não pelo fio da calçada e sim à margem da rua, prestes a cair no buraco: é dessa forma que vivo – como se não houvesse um leme, um freio, uma direção. Bem, há uma direção que é deus e por ela me conduzo, alegremente. Assim não caio no buraco, pulo, salto, corro e danço no asfalto, e nos caminhos de terra e várzeas, pelos lagos e rios e pelo ar. No fundo do mar, também, em que me lanço como âncora antiga e pesada, cheia de sinuosidade e de uma maldade preciosa, que é crosta, ferrugem e resistência. Graças a deus, graças a deus estou vivo, mesmo caminhando assim, de sobressalto, turvo, girando em torno de mim mesmo como um peão louco e infantil, fazendo graça, cativando as pessoas e mimando elas, e irritando outras, arrancando a pele de uns em carne viva.

Casamento na Roça


“Quem vai rezar a missa? Você é que vai ser o padre?”, “Ah, você é um pervertido!”, e assim foi a nossa conversa, sobre um casamento na família, e os escândalos – o escândalo é sagrado, às vezes, como a ira de Jesus –, mas agora eu estou casado, ou quase, quer dizer, eu estou firme e forte. Pisando na terra, sentindo a sua quentura doce, a parte molhada e a parte arenosa, as águas de cima abaixo, e depois até a merda é normal, aguente o tranco. Os temporais de Junho, o Santo Antônio e a cheia no pequeno Manguaba perto de casa, os namorados em êxtase, a vida tem sabor de cerveja, e a teia se refazendo, outra vez, o ciclo até acabar, mas eu não me mato. Fui tecendo minha própria rede e o casamento, afinal, o amor, isso recupera e torna um homem mais maduro. Seja o que for.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Aos seus Pés


O que sei é que tenho de pedir perdão, perdão à máquina, e perdão, sobretudo, a minha mãe, o perdão dos meus deuses, ó Ísis, me perdoa! Quando dei por mim, o céu, as estrelas desapareceram: o mundo caiu, acabaram-se as ilusões, doce vida de regalo e prazer.

Tudo o que sempre sonhei: você, aqui, comigo, depois de tanto tempo, eu estou imaginando isso, eu nem o encontrei, nem sei onde ela está. Vida de sacrifícios, vida pacata e tirana, a ordem das coisas, isso não para nunca? Veneno cotidiano, você, de novo, aprisionado ao sexo, suas absurdas diretrizes interiores e exteriores, ah, que sei eu, tudo bem, okay, e lá se vão anos. Tempo de experiência e expectativa, você mesmo, quanto não experimentou? Nem falo de saudade, mas de esquecimento, rejúbilo, o tapa do vento no alto da montanha, pertinho do céu, e o mundo aos seus pés.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Fado


Foto, Vinícius Lopes












Atireis sobre mim os vossos petardos
Que o primeiro certeiro atinja de pronto o meu coração
Lanceis vossa espada a minha fronte
Abrindo meu cérebro
Libertando este meu pressentimento
Depois, saqueardes tudo o que tenho

Pegai minhas flores
Meu torso branco, jogai-os no mato aos caçacos!
Tomeis a minha guitarra: estilhaçai-a, tornai-a frangalho
Boiando no rio, frangalho eu despojado
Das minhas posses
Dos meus cabelos negros
Da minha doce fábula canavieira

Ei-me a vossa frente esperando o balaço
Não demoreis, não vejo a hora de livrar-me dos vossos perjúrios
E da vossa insensatez, cruz credo, como vos dei ouvidos
Eu vos peço, imploro-vos
Abrevieis a minha agonia, ide logo
Ao ponto final: Ai!

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Saga de Angelitus


Trindade: Marco Ulgheri (percussão), Sebage (vocal) e Beto Lefévre (guitar), Café >Piu Piu, SP, 2003, foto: Vidal Cavalcante








Angelitus parou de tocar, congelou o olhar num ponto distante e sentiu um aperto no tornozelo, estava fora de si: seu cérebro queimava vivo no canavial por toda noite. “Chega, Angelitus” – o cérebro sacrificado diariamente, é natural que fique louco.
“Jamais vou esquecer o meu assassinato. Mamãe, ainda viva, e eu morto, aqui, oh, meu fígado assado na pedra numa noite tão fria”. Canibais, canibais! Angelitus, não ligue, depois disso, não vai mais precisar de cérebro.

Trocando o pato pela galinha

Casualmente embriagado e morto de cansado, ausente como quem não quer nada, espiral política dando voltas: verde que te quero verde, verde fogueira e sombras verdejantes: atiro a pedra no rio, ela rebate, atiro outra pedra, meus olhos se iluminam à visão da poça de gasolina no posto em frente, o sol bate na poça, depois na minha retina: reflete nos meus dentes. Guardo na proporção do enigma o seu refolgo e o medo de açougue: o pato no asfalto agoniza, não quero mais: uma galinha, eu lhe digo, é o que me satisfaz.

Primavera

Me leva pelas esferas do disco, pelos riscos
Até o inferno
Vem a Primavera
Eu não quero drama
Mas somente a palavra sincera

terça-feira, 2 de junho de 2009

Início, Oposição ao Início, Realização


'Noite Vazia', Walter Hugo Khoury














Maravilhas da Antiguidade, escritas na pedra e no couro, muita coisa relegada, mas que foi resgatada por um impulso forte e pelos esforços diários e noturnos. Não se esqueça de anotar as noites ruins, solitárias – vazias. Como um filme de Khoury, ou senão dias e noites de sexo cerebral. Ou o não-sexo, que é o que acontece sempre... Mas voltando às histórias do passado remoto, ali estão as causas, as predestinações, o caminho trilhado desde o começo. Nós todos temos um início, um meio e um fim. Eu estou no meio, ou no fim do meio, já que o meio também tem um começo. Na verdade, geralmente, é assim:
1 – Início, e tem início do início, oposição ao início (que é o meio) e fim ou realização do início, do parto aos 30 anos;
2 – Oposição (o meio), compreendendo, também, início da oposição, oposição à oposição e realização ou fim da oposição, dos 30 aos 60;
3 – Realização (fim), dos 60 aos 90, em média, mantendo, igualmente, esse princípio de início, meio e fim.