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domingo, 22 de março de 2009

O Tarô


Foto de Vidal Cavalcante















Do livro "Versos Cósmicos e Religiosos"

Jogo magnífico, impressionante como as cartas se amalgamaram ao meu pensamento e à resposta que eu já imaginara, antes, embaralhando as lâminas! O monge, a figura masculina em si, o arquétipo: Rei de Paus. O Mundo, o Julgamento, o Enforcado. Sacrifício e milagre, conhecimento: o servo do amor, a questão é. E o Carro, a Sacerdotisa, o Rei de Espadas, a Rainha de Espadas, o ano-que-vem! Estranho, me sinto tão bem, esse jogo foi real...

O Corpo


Com João Paulo e Adriano, Alma de Borracha, no Teatro Sesi, Maceió, 2007, foto do Ellyo Rios




O corpo de Walt Whitman caminhava pela avenida, nu e solitário, vagabundo, noturno, à madrugada, esquecido de sua cadelinha. Nenhuma carta mandara pra ela, nenhum beijo espacial, extra-temporal, nenhuma lembrança paradoxal, afinal Whitman era um homem, um poeta verdadeiramente boçal. Encontrara tantas cachorras, nenhuma como aquela, felizmente. Nenhuma tão demente, ela ficava em casa feito uma mulherzinha, ausente. Ah, ele voltara.

– Mas eu não sou uma mulherzinha, já lhe disse, nem mesmo uma cadela eu sou, veja bem o que tenho entre as pernas, é muito mais do que boceta: bagos, colhões, e uma bela de uma baguete.

– Baguete? Não me faça rir... Isso não me enche, não me preenche, me dê o seu cu, vá.

Gente. Eu vou ser mau, amiga, agora que estou sozinho com ele e mergulhei nessa rede de paixão. Tinha lido Proust, mas deixei você com um copo na mão, esperando a droga: precisava de cisma (pra segurar meu carisma), pois nasci assim tão só e você, por favor, não se iluda, deus lhe acuda e lhe dê um tanto de paz, talvez um casamento, oxalá, com o corpo que lhe apraz.

Antiguidade Clássica

Jeanne Moreau, não, Medéia, ela mesma, a rachada-bofe que nem minha amiga é, embora se passe por tal, freqüenta minha casa, me beija e pisca pro Walt. Ordinária se fazendo de santa, putinha é o que ela é, cacho do demo, odiosa, titica de galinha, e Walt, esse ignóbil, se desmanchando todo.

Conheço bem a glória de Juno, a beleza clássica, a essas alturas se enrijece toda num cárcere de gelo, não pode sair às ruas, não suporta o calor e é visceralmente alérgica à poluição, deus do céu, a estátua de Apolo não faz o menor sentido, nenhum sentido: imagina eu enterrado vivo com as esposas de um xá paulista.

Acontece que tudo isso, hoje em dia, é astrologia.

Epílogo

A amiga subiu as escadas ensandecida e quase se estrepou no ferro do portão, um décimo de segundo depois de o cão lhe dar um primeiro e definitivo bote. Por sorte, nada aconteceu a ela, não fosse por um arranhão no braço que por muito pouco, no pulo, não ficou espetado no ferro. Enfim, acudi-a e lhe dei guarida. Amiguinha, tive um pesadelo contigo esta noite e acabei tudo com o Walt – ele não acreditou, achou que era um capricho a minha revolta de cadela. Você que pôs este véu sobre o meu espírito sabe que não estou mentindo.

Medéia voltou. Ela que matou os filhos por uma besteira de amor, Medéia queria ser moça, Jeanne Moreau, brasileira. Era uma glória da arte exceto pelos pêlos queimados da boceta, rachada-mulher, o bofe – viu esse filme nos anos 1970? O cabelo dele em caracóis, todo enroladinho: ia pro seminário, mas entrou no exército verde, comeu uns soldadinhos e então resolveu casar.

O corpo de Whitman era a esperança do leproso: queria um amor que cuidasse da pele dele, pra sempre em Cristo, no céu, na terra, na cama e fora dela, nos prazeres da vida, na desgraça da morte, no além, no aquém, em cima, embaixo, dentro de mim, tão dentro quanto possível.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Way of Life


Cassiano (batera), Sebage e Agata, e Ricardo (guitarra), +jesuítas+ no Orbital, SP, 2001, foto de Vidal Cavalcante


Modo de vida
Acontece todos os dias
Não há nada a fazer sobre isso
A não ser pegar a estrada novamente
Graças a deus
Graças a deus eu tenho pernas
Dinheiro e o que me resta de saúde
Não é pouco
Queira deus viva ainda um bocado de anos
Décadas, farei de você a mulher mais feliz do mundo
É o erro habitual, não acreditar no amor
Não acreditar na força do amor
Mas quem aguenta? É tão difícil esquecer o passado
Cada uma das piadas de mau gosto
Cada palavra maldita, os gestos indecentes
Impossível não pecar e perdoar
E é difícil amar você
Amar esquecendo de si mesmo
Só não vou deixar você me matar

Bomba-Relógio


Crash!!! Bow!!! Crack!!!
– Xiiiiiii... (Estilhaços)
Todas menos sexo (me guardo pra ti?)
Por enquanto, celibatário
É uma orgia, energia
Toda comigo, eu mereço

Meditation


Foto de Cláudio Pedroso


















Esvaziado como o túmulo de gesso em que se enfiara na tentativa de superar os últimos acontecimentos. Livrava-se dos pensamentos (e do sofrimento e das alegrias), absorvendo o pó gelado grudado em sua pele. Aquilo precisava ter um fim, essa equação de pele e sentidos... Deitado ali no mármore frio da cripta, já não pensava, pudesse tornar-se um sacerdote, xamã oculto: mais bruxaria, menos sexo... Toda essa perseguição e caça noturna, vesperais, matinais, ele enfim meditava no vazio, nunca fiz isso, mas será que é bom, será que dá certo?

Cerveja e Morango


A feira de Porto Calvo segundo Albert Eckhout (1610-1666)






De volta ao espaço lúdico de um dos meus sete corpos, à atmosfera musical desse corpo e aos devaneios em si, quer dizer, à Literatura! Nada mais justo depois de todo esse derrame de sangue... Agora os anjos do Senhor derramam sobre o meu rosto filtro de puro amor solar, e o brilho das estrelas. O diabo rodopia e se irrita tanto que até dá pena, minha pele recupera o vigor, cicatrizes desaparecem, o calombo, as coisas ganham outro sabor, como sabor de cerveja e morango.

Meu Naipe


As espadas da guerra
As espadas da guerra quando já nem eram copas
Faço de conta que não sei de nada
(Da tua espada) E me entrego como copas